Recorde Histórico — 546 mil afastamentos em 2025

Brasil Bate Recorde
de Afastamentos
por Transtornos Mentais

Veja de fato como tratar riscos psicossociais

A partir de maio de 2026, burnout, exaustão crônica e depressão ocupacional passam a integrar o GRO/PGR como risco mensurável e gerenciável. Dados, metodologias e o caminho para a ação — tudo em um só lugar.

#SaúdeMental#Trabalho#NR1#RiscosPsicossociais#Burnout#GestãoDeRiscos
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O Cenário Alarmante

Os números que o Brasil não pode ignorar

0

Afastamentos por transtornos mentais em 2025

+15,66% vs 2024

0.0 mi

Total de auxílios-doença concedidos em 2025

Maior número em 5 anos

0.0%

Tiveram nexo ocupacional reconhecido

94,5% tratados como doença comum

Evolução dos Afastamentos por Transtornos Mentais (2016–2025)

Gráfico de evolução dos afastamentos

Fonte: Ministério da Previdência Social, 2026

As perguntas que precisam de respostas

Antes de agir, é preciso entender

🏢

O trabalho é o grande responsável por isso?

Se não for, quem é?

⚖️

O que adoece mais: questões laborais ou extralaborais?

📈

Por que os afastamentos explodiram nos últimos 2 anos — e não só por transtornos mentais?

A Verdade dos Números

94,5% dos afastamentos são tratados como doença comum

O trabalho contribui, mas não explica tudo. Apenas 5,5% dos benefícios por incapacidade tiveram nexo ocupacional reconhecido — o que indica subnotificação ou sub-reconhecimento das causas laborais.

Nexo Ocupacional Reconhecido (2025)

Gráfico de nexo ocupacional

Fonte: Ministério da Previdência Social, 2026

"O trabalho é o maior responsável por esses afastamentos? Conforme o próprio MPS, não."

— Marcos Mendanha, Médico do Trabalho
1

Doença Comum (B31)

516.207 benefícios — sem estabilidade no emprego após alta

2

Acidentário (B91)

30.047 benefícios — com nexo ocupacional e estabilidade de 12 meses

Os Principais Vilões

Ansiedade e depressão lideram o ranking

CIDTranstorno20252024Var.
F41Transtornos ansiosos166.489141.414+17.7%
F32Episódios depressivos126.608113.604+11.4%
F31Transtorno afetivo bipolar60.90451.314+18.7%
F33Transtorno depressivo recorrente60.55152.627+15.1%
F19Uso de múltiplas drogas25.16021.498+17.0%
F43Reações ao stress grave23.77320.873+13.9%
F20Esquizofrenia18.68614.778+26.4%
F10Uso de álcool12.75811.470+11.2%

Fonte: Ministério da Previdência Social, 2026

Distribuição por Sexo

Distribuição por sexo

Top 5 Estados

SP149.375
MG83.321
RS46.738
RJ41.997
SC39.441

Fatores Extralaborais

O adoecimento não começa (e não termina) no trabalho

Vivemos um contexto socioeconômico e tecnológico que alimenta o sofrimento psíquico fora do local de trabalho, somando-se aos fatores ocupacionais.

Cuidado com a Positividade Tóxica

Forçar atitude otimista a qualquer custo tende a ocultar o sofrimento real, silenciando emoções negativas. Problemas estruturais não se resolvem apenas com discursos motivacionais.

⚠️

Violência Urbana

Atua como gatilho de ansiedade e depressão na população em geral.

💰

Precariedade Salarial

Quando a renda mal cobre necessidades básicas, aumentam os transtornos de ansiedade e humor.

📱

Redes Sociais e Hiperconectividade

Uso excessivo está associado a elevação da ansiedade e comparações negativas.

📉

Insegurança Econômica

Instabilidade no emprego e endividamento geram sofrimento psíquico crônico.

O Limbo Previdenciário

O ciclo de vulnerabilidade que ninguém quer ver

Adoece

Trabalhador desenvolve transtorno mental

Afasta-se

Solicita benefício ao INSS

INSS Nega

Perícia não reconhece incapacidade

Empresa Rejeita

Médico da empresa considera inapto

Limbo

Sem renda, sem suporte, sem estabilidade

"Muitos trabalhadores enfrentam um ciclo de vulnerabilidade extrema, sem auxílio financeiro, sem acolhimento e ainda sob risco de perder o emprego."

A Nova NR-1

Saúde mental deixa de ser discurso e passa a ser obrigação legal

A partir de maio de 2026, a NR-1 exige que empresas incorporem os fatores de risco psicossociais em seus Programas de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).

2024

Portaria MTE nº 1.419

Inclusão expressa dos fatores de risco psicossociais no GRO. Integração entre NR-1 e NR-17.

Mai/2025

Início da Vigência

Empresas devem incorporar riscos psicossociais ao PGR. Período educativo sem multas.

Mai/2026

Fiscalização Plena

Após essa data, descumprimento gera autuações e penalidades. Sujeita a auditorias.

"A NR-1 é, hoje, uma resposta de socorro para um cenário de adoecimento coletivo, principalmente ligado à saúde mental."

— Yara Leal Girasole, Advogada Trabalhista

Similaridade com a AET

A mesma lógica da Análise Ergonômica, aplicada aos riscos psicossociais

Assim como a NR-17 exige a AET para riscos ergonômicos, a NR-1 agora exige uma abordagem estruturada para riscos psicossociais — com a mesma lógica de identificação, avaliação e controle.

AspectoAET (NR-17)Riscos Psicossociais (NR-1)
FocoErgonomia física, cognitiva e organizacionalFatores psicossociais (estresse, assédio, sobrecarga)
Base LegalNR-17NR-1 (atualizada 2024)
MetodologiaAET — Análise Ergonômica do TrabalhoInventário de Riscos + Questionários validados
AvaliaçãoDemanda física, mobiliário, iluminação, organizaçãoDemanda psicológica, autonomia, apoio social, assédio
ProfissionalErgonomistaEquipe multidisciplinar (SST + RH + Psicólogo)
DocumentoLaudo ErgonômicoPGR com Inventário de Riscos Psicossociais
IntegraçãoPGR / PCMSOPGR / PCMSO / Plano de Ação
SimilaridadeAmbos exigem: identificação → avaliação → controle → monitoramentoCiclo PDCA integrado ao GRO

Fluxograma GRO — Gerenciamento de Riscos Ocupacionais

Fluxograma GRO

Ciclo de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais conforme NR-1

Diagnóstico de Burnout

Fluxograma para Diagnóstico de Burnout (CID-11)

Conforme a CID-11 (QD85), o Burnout é uma síndrome resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso. O diagnóstico exige a presença simultânea de três dimensões.

Fluxograma de diagnóstico de Burnout

Baseado em Marcos Mendanha — Fluxograma para diagnóstico de Burnout conforme CID-11

1

Exaustão Emocional

Sentimento de esgotamento ou depleção de energia. O trabalhador sente-se incapaz de dar mais de si.

2

Despersonalização / Cinismo

Aumento da distância mental do trabalho, sentimentos de negativismo ou cinismo em relação às atividades.

3

Redução da Eficácia Profissional

Sensação de incompetência e falta de realização. Queda mensurável na produtividade e qualidade do trabalho.

Critério Essencial

O Burnout é exclusivamente laboral. Se os sintomas não estão vinculados ao contexto de trabalho, o diagnóstico correto pode ser outro transtorno (F32, F41, F43).

Matriz de Risco Psicossocial

Probabilidade × Severidade: classificando os riscos

A matriz de risco psicossocial segue a mesma lógica de qualquer matriz de risco ocupacional: cruza a probabilidade de ocorrência com a severidade do dano para definir o nível de risco e a prioridade de ação.

Insignificante
Baixa
Moderada
Alta
Catastrófica
Muito Improvável
Baixo
Baixo
Médio
Alto
Crítico
Improvável
Baixo
Médio
Médio
Alto
Crítico
Possível
Médio
Médio
Alto
Alto
Crítico
Provável
Médio
Alto
Alto
Crítico
Crítico
Muito Provável
Alto
Alto
Crítico
Crítico
Crítico
Severidade →

Exemplos Práticos de Classificação

Crítico

Muito Provável × Catastrófica

Assédio moral sistemático + tentativa de suicídio

Alto

Provável × Alta

Sobrecarga crônica + episódio depressivo grave

Médio

Possível × Moderada

Conflitos interpessoais recorrentes + ansiedade

Baixo

Improvável × Baixa

Demanda pontual elevada + estresse temporário

Comparativo de Métodos

Qual ferramenta usar? Guia comparativo

Não existe ferramenta única obrigatória. O Guia do MTE recomenda instrumentos validados cientificamente. A escolha depende do porte da empresa, do objetivo e dos recursos disponíveis.

MétodoOrigemFormatoVantagemLimitaçãoRecomendado
COPSOQ IIIDinamarca (NRCWE)Questionário (versão curta: 26 itens; média: 59; longa: 87)Mais completo e reconhecido internacionalmenteVersão longa pode ser extensa para aplicação em massaEmpresas de médio e grande porte com equipe técnica
ISTAS21 (CoPsoQ)Espanha (ISTAS)Questionário (versão curta: 38 itens)Versão curta prática e participativaMenos dimensões que o COPSOQ IIIPMEs e processos participativos com trabalhadores
ERI (Effort-Reward Imbalance)Alemanha (Siegrist)Questionário (23 itens)Foco no desequilíbrio esforço-recompensa, rápidoEscopo mais restrito (não cobre assédio, violência)Triagem rápida e estudos epidemiológicos
HSE-IT (Management Standards)Reino Unido (HSE)Questionário (35 itens) + entrevistasIntegra questionário + abordagem gerencialMenos difundido no BrasilOrganizações que buscam abordagem gerencial integrada
JCQ (Job Content Questionnaire)EUA (Karasek)Questionário (49 itens na versão completa)Modelo teórico robusto (Demanda-Controle)Não aborda assédio, violência ou fatores organizacionais amplosPesquisa acadêmica e diagnóstico inicial
SRQ-20OMSQuestionário (20 itens sim/não)Ultra-rápido, gratuito, ideal para triagem em massaNão é específico para riscos psicossociais do trabalhoTriagem inicial em programas de saúde ocupacional

Fonte: Guia de Informações sobre Fatores de Riscos Psicossociais — MTE, 2025

Dimensões COPSOQ III

  • Demandas quantitativas
  • Ritmo de trabalho
  • Demandas emocionais
  • Influência no trabalho
  • Possibilidades de desenvolvimento
  • Significado do trabalho
  • Compromisso com o local
  • Previsibilidade
  • Reconhecimento
  • Clareza de papel
  • Conflito de papéis
  • Qualidade da liderança
  • Apoio social de colegas
  • Apoio social de superiores
  • Comunidade social
  • Insegurança no emprego
  • Satisfação no trabalho
  • Conflito trabalho-família
  • Saúde geral
  • Burnout
  • Estresse
  • Problemas para dormir

Quando Usar Cada Um

Triagem Rápida

SRQ-20 ou ERI — aplicação em minutos, ideal para rastreamento inicial.

Diagnóstico Completo

COPSOQ III ou ISTAS21 — avaliação multidimensional para plano de ação.

Gestão Integrada

HSE-IT — combina questionário com abordagem gerencial e entrevistas.

Pesquisa Acadêmica

JCQ — modelo teórico robusto para estudos epidemiológicos.

Critérios de Escolha

🏢

Porte da Empresa

PMEs: ISTAS21 ou SRQ-20. Grandes: COPSOQ III.

🎯

Objetivo

Triagem: SRQ-20/ERI. Diagnóstico: COPSOQ. Gestão: HSE-IT.

👥

Equipe Disponível

Sem especialista: SRQ-20. Com equipe SST: COPSOQ III.

📋

Compliance NR-1

Qualquer instrumento validado é aceito. Documente a escolha no PGR.

Roteiro de Implementação

6 etapas para implementar a gestão de riscos psicossociais

Integrado ao PGR conforme NR-1. Cada etapa deve ser documentada e revisada periodicamente.

01

Preparação e Sensibilização

  • Formar comitê multidisciplinar (SST + RH + Jurídico + Psicólogo)
  • Definir política organizacional de saúde mental
  • Capacitar lideranças sobre riscos psicossociais
  • Comunicar o processo a todos os trabalhadores
02

Identificação dos Perigos

  • Aplicar questionário validado (COPSOQ, ISTAS21, SRQ-20)
  • Realizar entrevistas e grupos focais
  • Analisar dados de absenteísmo, rotatividade e atestados
  • Mapear setores e funções de maior risco
03

Avaliação dos Riscos

  • Classificar riscos na Matriz Probabilidade × Severidade
  • Priorizar por nível de risco (Crítico → Alto → Médio → Baixo)
  • Documentar no Inventário de Riscos do PGR
  • Considerar fatores agravantes (trabalho noturno, isolamento, etc.)
04

Plano de Ação e Controle

  • Definir medidas de eliminação/redução para cada risco
  • Estabelecer prazos, responsáveis e recursos
  • Priorizar medidas coletivas sobre individuais
  • Integrar ao Plano de Ação do PGR
05

Implementação

  • Executar medidas conforme cronograma
  • Treinar equipes sobre novos procedimentos
  • Disponibilizar canais de escuta e apoio psicológico
  • Documentar todas as ações realizadas
06

Monitoramento e Revisão

  • Reaplicar questionários periodicamente (anual ou semestral)
  • Acompanhar indicadores (absenteísmo, turnover, satisfação)
  • Revisar e atualizar o PGR conforme resultados
  • Manter registros para fiscalização e auditorias

Nexo Causal

Como avaliar o nexo entre trabalho e transtorno mental

A comprovação do nexo causal é um dos maiores desafios na saúde mental ocupacional. Exige análise técnica multidisciplinar e documentação robusta.

Os 4 Pilares da Comprovação

🏥

Diagnóstico Clínico

CID confirmado por profissional de saúde. Deve haver laudo médico ou psicológico com descrição detalhada dos sintomas e evolução.

⚠️

Exposição ao Risco

Comprovação de que o trabalhador esteve exposto a fatores de risco psicossociais no ambiente de trabalho (inventário de riscos, AET, relatos).

📅

Nexo Temporal

Relação cronológica entre a exposição e o adoecimento. O início ou agravamento dos sintomas deve coincidir com a exposição laboral.

🔍

Exclusão de Outras Causas

Avaliação de fatores extralaborais (violência, problemas familiares, uso de substâncias) que possam explicar o quadro de forma independente.

Tipos de Nexo Reconhecidos pelo INSS

1

NTEP — Nexo Técnico Epidemiológico

Cruzamento automático entre CID e CNAE. Se a combinação está na lista do INSS, presume-se nexo ocupacional (inversão do ônus da prova).

2

Nexo Técnico por Doença Equiparada

Quando há evidência epidemiológica de que a doença tem relação com a atividade, mesmo sem estar na lista NTEP.

3

Nexo Individual (Perícia)

Avaliação caso a caso pelo perito do INSS, considerando histórico clínico, ocupacional e exames complementares.

Pontos Críticos para Avaliação do Nexo

Concausalidade

O trabalho não precisa ser a causa única. Basta que tenha contribuído para o adoecimento ou agravamento, mesmo havendo fatores extralaborais.

Inversão do Ônus da Prova

Com o NTEP, cabe à empresa provar que NÃO há nexo. Se a empresa não tem PGR com riscos psicossociais documentados, fica mais vulnerável.

Documentação é Proteção

Empresas que documentam a gestão de riscos psicossociais (inventário, plano de ação, monitoramento) têm maior respaldo em contestações.

Papel do Inventário de Riscos

O inventário de riscos do PGR é a principal evidência técnica. Sem ele, a empresa não tem como demonstrar que avaliou e controlou os riscos.

Dashboard de KPIs

Indicadores essenciais para monitoramento

Monitorar é tão importante quanto implementar. Estes KPIs permitem acompanhar a efetividade das ações e demonstrar compliance em auditorias.

Saúde

Taxa de absenteísmo por saúde mentalMeta: < 2%

(Dias perdidos por TM / Dias trabalhados) × 100

Prevalência de TMC (SRQ-20)Meta: < 20%

% de trabalhadores com score ≥ 7 no SRQ-20

Incidência de novos casosMeta: Tendência ↓

Novos afastamentos por TM / Total de trabalhadores

Clima e Engajamento

Score de riscos psicossociais (COPSOQ)Meta: Zona verde

Média das dimensões do questionário aplicado

Satisfação no trabalhoMeta: > 70%

Pesquisa de clima — dimensão satisfação

Percepção de apoio organizacionalMeta: > 75%

Pesquisa de clima — dimensão suporte

Rotatividade e Retenção

Turnover voluntárioMeta: < 10%/ano

(Desligamentos voluntários / Headcount médio) × 100

Tempo médio de afastamentoMeta: < 30 dias

Soma dos dias de afastamento / Nº de afastamentos

Taxa de retorno ao trabalhoMeta: > 85%

Retornos bem-sucedidos / Total de afastamentos

Compliance NR-1

Inventário de riscos atualizadoMeta: 100%

Setores com inventário atualizado / Total de setores

Plano de ação implementadoMeta: 100%

Ações concluídas / Ações planejadas

Treinamentos realizadosMeta: > 90%

Trabalhadores treinados / Total de trabalhadores

Hora de Agir

De discurso a ação:
o prazo é agora

Em 2026, a saúde mental no trabalho deixa de ser apenas tema de campanhas e passa a ser questão de conformidade legal. Os números alarmantes de 2025 são um recado claro: é hora de agir de forma estrutural e educativa.

"Proteger a saúde mental dos trabalhadores não é só cuidar do indivíduo — é também zelar pela sustentabilidade das empresas e do sistema previdenciário."

Checklist de Ação Imediata

Incluir riscos psicossociais no Inventário de Riscos do PGR

Aplicar questionário validado (COPSOQ, ISTAS21, SRQ-20)

Classificar riscos na Matriz Probabilidade × Severidade

Elaborar Plano de Ação com prazos e responsáveis

Capacitar lideranças sobre saúde mental e riscos psicossociais

Disponibilizar canais de escuta e apoio psicológico

Monitorar KPIs de saúde mental periodicamente

Documentar todas as ações para compliance e auditorias

Visão Sistêmica
🔴 Risco Psicossocial e Doença Mental

O Novo Centro da
Gestão Estratégica de Riscos

A inclusão do risco psicossocial na NR-1 não é apenas uma atualização normativa. É uma mudança estrutural na forma como organizações devem enxergar o risco.

A partir de maio, não se trata mais de recomendação — trata-se de exigibilidade formal. Burnout, exaustão crônica, distúrbios do sono, depressão ocupacional e nexo causal laboral passam a integrar o GRO/PGR como risco mensurável e gerenciável.

Ponto Crítico

"Grande parte desses riscos nasce de variáveis físicas mal avaliadas ou mal interpretadas."

A ideia de sair do ERM tradicional baseado em check-lists e heatmaps para um modelo de vigilância estratégica contínua (scanning) dialoga diretamente com o que temos observado na prática técnica em engenharia, offshore, energia e saúde ocupacional.

Modelo Antigo

Conformidade Documental

Check-lists, heatmaps, auditorias pontuais

MIGRAR PARA

Modelo Novo

Vigilância Operacional Contínua

Scanning, sinais fracos, cenários plausíveis

🏭

Caso Emblemático: Tanque da Vibra — Volta Redonda

Quando o sistema de gestão só reage ao dado auditável

Não foi um evento totalmente imprevisível do ponto de vista técnico, mas um típico "ponto cego" organizacional. Havia sinais fracos que o sistema de gestão de riscos convencional não conseguiu capturar:

01

Manutenção com histórico deficiente

02

Contexto ambiental ignorado

03

Condições estruturais subestimadas

04

Sistema de gestão reativo — só age quando dado é auditável

Lição Central

"Se esperamos a evidência perfeita, já estamos em modo de crise."

O maior risco hoje é o que ainda não aparece no relatório. Justamente por isso, a vigilância contínua e a leitura de sinais fracos deixam de ser conceitos teóricos e passam a ser ferramentas essenciais.

🔎

O Ponto Cego: Conforto Não É Insalubridade

NR-37 e o equívoco conceitual nos limites de referência para vibração

✅ Ruído em Camarotes — NR-37 acertou

Para ruído em camarotes, a NR-37 adota critério de conforto acústico, coerente com descanso e recuperação fisiológica:

60 dB(A)

Máximo em camarotes

55 dB(A)

Já exige medidas preventivas

🔴 O Equívoco da NR-37 — Vibração

Mas para vibração de corpo inteiro (WBV), o item 37.12.7.1 m) da NR-37 remete ao nível de ação da NR-09 (0,50 m/s²).

Esse é um critério de exposição ocupacional diária (insalubridade).

Camarote não é posto de trabalho ativo.
É ambiente de descanso. A analogia correta: é como permitir 80 dBA em camarote porque é limite ocupacional — o que seria absurdo. O erro não está no ruído. Está na vibração.

📊 Comparação Técnica — Vibração (WBV)

CritérioValor
NR-37 (remissão NR-09 — nível de ação)0,50 m/s²
Conforto humano (ISO 2631 / ISO 6954 / práticas offshore)0,04 – 0,07 m/s²

Valores até 10× menores para conforto. Estamos medindo com a régua errada.

NR-37 (NR-09)

0,50 m/s²

Insalubridade ocupacional

ISO 2631 / 6954

0,04 m/s²

Conforto em cabines offshore

O que ocorre hoje em campanhas offshore

🔊

Medições inadequadas

Equipamentos configurados apenas para insalubridade, sem análise espectral em 1/3 de oitavas

📉

Ausência de sensibilidade

Sem capacidade de detectar níveis de conforto em áreas de descanso — sem avaliação triaxial (X, Y, Z)

📋

Relatórios "conformes"

Formalmente corretos, mas tecnicamente equivocados para conforto — como usar dosímetro que não mede abaixo de 70 dBA

⚠️

Custo sistêmico invisível

Fadiga crônica, privação de sono, erro humano, risco psicossocial e maior propensão a burnout

📉 O Problema da Métrica Errada

Conforto vibroacústico exige:

Medição em 1/3 de oitavas
Faixa 1–80 Hz
Avaliação triaxial (X, Y, Z)
Aceleração (m/s²)
Velocidade (mm/s)
Instrumentação ISO 8041

Referências internacionais: IMO, NORSOK, ABS, ISO 6954 — cabines e áreas de acomodação exigem limites muito mais baixos e instrumentação adequada, com medições em 1/3 de oitava e grandezas em aceleração e velocidade de vibração.

🧠

Por Que Isso É Um Risco Psicossocial?

O risco não nasce apenas da pressão hierárquica — nasce do ambiente físico inadequado

Sono fragmentado + vibração contínua + ruído estrutural geram uma cadeia de efeitos que conectam diretamente o ambiente físico ao risco psicossocial:

1

Sono fragmentado

2

Fadiga acumulada

3

Irritabilidade

4

Redução cognitiva

5

Aumento de erro operacional

6

Maior propensão a conflitos

7

Maior probabilidade de burnout

Convergência com a NR-17

A AET (Análise Ergonômica do Trabalho) deve considerar:

Organização do trabalho
Turnos
Carga mental
Conforto térmico
Conforto acústico
Vibração
Qualidade do ar

Se a medição de vibração for feita com critério de insalubridade, o laudo estará formalmente correto, mas tecnicamente falho para conforto — e o risco psicossocial permanecerá invisível.

🔴

Impacto Sistêmico

Com o risco psicossocial na NR-1, o problema deixa de ser técnico e passa a ser estratégico

📈

Aumento de afastamentos

💰

Maior sinistralidade em seguros

⚖️

Ampliação do passivo trabalhista

🔗

Crescimento de alegações de nexo causal

📉

Risco reputacional

⚙️

Perda de performance operacional

⚖️

A Convergência NR-1 + NR-17

Risco psicossocial integrado ao GRO/PGR com tratamento técnico via AET

O Brasil deu um passo importante ao inserir o risco psicossocial na NR-1, com exigibilidade efetiva a partir de maio de 2026. Burnout, adoecimento mental e nexo causal laboral passam a integrar formalmente o GRO/PGR.

O tratamento técnico se consolida na NR-17, por meio de AETs e laudos ergonômicos completos, considerando:

1

Organização do trabalho

2

Turnos e ritmos

3

Conforto ambiental

4

Carga cognitiva e emocional

5

Adequação aos parâmetros mínimos de conforto para agentes físicos

Ponto de Convergência

NÃO DÁ MAIS PARA

Tratar risco psicossocial como evento reativo

É NECESSÁRIO

Monitoramento contínuo e leitura de sinais fracos

🔄

Convergência: A Nova Lógica de Gestão de Riscos

Scanning contínuo, sinais fracos e planejamento por cenários

🧠

Riscos Psicossociais

Sinais fracos antes de se tornarem afastamentos ou litígios

🔈

Conforto Vibroacústico Offshore

Pequenos desvios persistentes geram fadiga e eventos maiores

🏗️

Falhas Estruturais

Sinais técnicos ignorados se tornam acidentes visíveis

O que a nova lógica exige

📏

Métrica correta e equipamento adequado

🔗

Leitura integrada de dados técnicos e humanos

🎯

Interpretação integrada e scanning contínuo

Atuação antes da evidência auditável

Conclusão e Alerta

O maior risco hoje não é a vibração elevada.
É medir vibração com o critério errado.

Não é o ruído isolado. É a soma de desconforto físico + pressão organizacional.

Não é a norma isolada. É a interpretação limitada dela.

A entrada do risco psicossocial na NR-1 exige maturidade técnica.

A maturidade técnica começa com

Métrica correta
Equipamento adequado
Interpretação integrada
Scanning contínuo

Sem isso, continuaremos cumprindo formalidades enquanto o risco real cresce silenciosamente.

Anexo Técnico

Organização e Gestão: a Influência dos Fatores Psicossociais na Saúde no Trabalho

Material técnico da Fundacentro, elaborado por Juliana Andrade Oliveira, sobre a relação entre organização do trabalho, reestruturações produtivas e riscos psicossociais.

🌍

Panorama Global da Crise

A dimensão mundial do adoecimento mental no trabalho

1 em 8

pessoas no mundo vivem com algum tipo de sofrimento mental

OMS

257 mi

adultos viviam com depressão em 2019

OMS

15%

da população em idade de trabalhar tem adoecimento mental

OMS/OIT, 2022

644 mi

dias perdidos no Brasil desde 2012

INSS/Smartlab

"É o momento certo para abordar os riscos psicossociais de forma mais assertiva. A pandemia de COVID-19 aumentou a conscientização de que o trabalho é um determinante social da saúde e que os riscos relacionados ao trabalho podem ter um grande impacto na saúde mental."

— Schulte et al., 2024 (NIOSH)
📜

Evolução Normativa (2019–2026)

Do reconhecimento à obrigação legal

2019

Convenção 190 da OIT

Aprovada na OIT a Convenção sobre eliminação da violência e do assédio no mundo do trabalho, junto com a Recomendação 206.

2019

Revisão da NR-17

Bancada dos trabalhadores solicita inserção de seção específica sobre aspectos psicossociais do trabalho.

2020

ISO 45003

Publicação da norma internacional de gestão de riscos psicossociais no trabalho.

2021

GET na CTPP

Início do Grupo de Estudos Tripartite sobre Riscos Psicossociais no Trabalho. Dados mostram crescimento consistente dos afastamentos desde 2016.

2022

Relatório OMS + OIT

Relatório conjunto destinado a ressaltar o trabalho como fator de adoecimento mental.

2023

Lei Empresa Promotora de Saúde Mental

Lei Federal criando Certificado de Empresa Promotora de Saúde Mental no Trabalho. Ministério da Saúde atualiza Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho.

2024

Riscos Psicossociais no GRO

Inclusão da expressão 'riscos psicossociais' na NR-1, reforçando a obrigação de contemplá-los no gerenciamento de riscos ocupacionais.

2026

Vigência Plena

Adiamento da vigência do novo texto na NR-1 para maio de 2026, com fiscalização efetiva.

🎯

6 Categorias de Fatores de Risco Psicossocial

Modelo College D'Expert / INRS (Gollac e Bodier, 2011)

⏱️

Intensidade e Tempo de Trabalho

Metas com prazos curtos, eliminação de pausas, aceleração do ritmo, extensão de jornada e horas extras excessivas.

Exemplos

Metas inalcançáveis, escala 6×1, jornada de 44h sem pausas adequadas

💔

Exigências Emocionais

Demanda de performance emocional como parte do serviço, pressão de usuários e clientes, contato com sofrimento.

Exemplos

Teleatendimento, profissionais de saúde, assistência social

🔒

Fraca Autonomia de Trabalho

Roteirização de atendimento, ausência de latitude de decisão, monotonia e impossibilidade de aperfeiçoamento.

Exemplos

Scripts obrigatórios, microgerenciamento, trabalho repetitivo

👥

Relações Sociais Degradadas

Gestão que estimula competição em vez de cooperação, ausência de escuta dos trabalhadores, estilos de liderança tóxicos.

Exemplos

Assédio moral, isolamento, falta de suporte da chefia

⚖️

Conflito de Valores

Sofrimento ético, discordância entre os princípios do trabalhador e os modos de fazer impostos pela gestão.

Exemplos

Trabalho 'mal feito' por imposição, metas que comprometem qualidade

⚠️

Insegurança da Situação de Trabalho

Ameaça de desemprego, mudanças organizacionais, precarização dos vínculos, pejotização e trabalho intermitente.

Exemplos

Terceirização, plataformização, contratos temporários

🏭

Reestruturações Produtivas e Riscos Psicossociais

Para cada modo de produção, há riscos psicossociais correspondentes

Séc. XVIII–XIX

Manufatura e Maquinofatura

Retalhamento de tarefas, máquinas movidas a carvão e vapor. Trabalho assalariado feito em galpões. O artesão ainda conhece todo o processo de trabalho.

Riscos Psicossociais Associados

Jornadas exaustivas, trabalho infantil, ausência de proteção

Séc. XVIIIAtualidade
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Agentes e Fatores de Risco Psicossociais

Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho — Ministério da Saúde, 2023

Gestão Organizacional

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Contexto da Organização do Trabalho

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Relações Sociais no Trabalho

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Conteúdo das Tarefas

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Condições do Ambiente

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Interação Pessoa-Tarefa

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Jornada de Trabalho

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Violência, Assédio e Discriminação

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Onde Estão os Fatores Psicossociais?

Três dimensões fundamentais de análise

01

Na Organização do Trabalho

Processo de trabalho e gestão da força de trabalho. Os fatores são identificados pelos trabalhadores e variam conforme a situação e ocupação analisada.

Inclui: normas de produção, modo operatório, exigência de tempo, ritmo, conteúdo das tarefas e aspectos cognitivos (NR-17, art. 17.4.1).

02

Nas Condições de Contratação

Relações de emprego ou ausência delas. Precarização, pejotização, trabalho intermitente, remuneração variável e insegurança laboral.

Inclui: pagamento por peça, tempo de espera sem remuneração, extensão de jornada, escala 6×1, trabalho noturno.

03

Na Divisão Social do Trabalho

Discriminação por gênero, raça, origem étnica, religião, orientação sexual e deficiência no seio das atividades de trabalho.

Inclui: injustiça organizacional, distribuição desigual de tarefas, desigualdades salariais, obstáculos à sindicalização.

Insight Fundamental

"Os 'tempos mortos' para o capital são os tempos vivos para a saúde. O ataque à saúde mental é quando os valores construídos coletivamente são ignorados e oprimidos por uma gestão externa à atividade de trabalho."

— Juliana Andrade Oliveira, Fundacentro

As medidas de proteção à saúde mental no trabalho devem intervir no seio do próprio trabalho, e não apenas no indivíduo. Recursos de autocuidado são importantes, mas serão sempre insuficientes se não houver ação diretamente nas condições, na organização e no desenho do trabalho.

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Modelo de Intervenção Participativa

A Ergonomia como caminho para o trabalho que não adoece

1

Identificação Participativa

Feita com escuta ativa dos trabalhadores operadores, que sempre têm proposições a partir de sua experiência.

2

Retorno aos Trabalhadores

Comunicação transparente dos resultados da identificação, garantindo que os trabalhadores conheçam os achados.

3

Negociação Multinível

Negociação das ações entre os níveis operacionais, intermediários e direção da organização.

4

Implementação Consensuada

Execução das ações que foram consensuadas entre todos os níveis, com prazos e responsáveis definidos.

5

Acompanhamento

Monitoramento contínuo das ações implementadas, verificando eficácia e necessidade de ajustes.

6

Reinício do Ciclo

Reinício periódico ou em eventos sentinela — como casos de assédio — garantindo melhoria contínua.

"A questão da subjetividade no trabalho não deve ser um empecilho para a identificação dos fatores causadores de sofrimento mental nos ambientes de trabalho e sua prevenção. Sendo os fatores de risco psicossocial conhecidos por meio da escuta dos trabalhadores, tendo o ponto de vista da atividade de trabalho como referência, a Ergonomia pode propor intervenções para promover o trabalho que não adoece, que tem sentido e que promove saúde."

— Juliana Andrade Oliveira, Fundacentro

Referências Bibliográficas

GOLLAC, M. e BODIER, M. (2011). Mesurer les facteurs psychosociaux de risque au travail pour les maîtriser.

SCHULTE, P.A. et al. (2024). An urgent call to address work-related psychosocial hazards. Am J Ind Med, 67: 499-514.

OMS e OIT (2022). Novas medidas para enfrentar os problemas de saúde mental no trabalho.

BRASIL. NR-1 e NR-17. Ministério do Trabalho e Emprego.

BRASIL. Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho. Ministério da Saúde, 2023.

ISO 45003:2021. Gestão de riscos psicossociais no trabalho.

DEJOURS, C. (2007). A banalização da injustiça social. São Paulo: FGV.

SELIGMANN-SILVA, E. (2011). Trabalho e desgaste mental.