Brasil Bate Recorde
de Afastamentos
por Transtornos Mentais
Veja de fato como tratar riscos psicossociais
A partir de maio de 2026, burnout, exaustão crônica e depressão ocupacional passam a integrar o GRO/PGR como risco mensurável e gerenciável. Dados, metodologias e o caminho para a ação — tudo em um só lugar.
O Cenário Alarmante
Os números que o Brasil não pode ignorar
Afastamentos por transtornos mentais em 2025
+15,66% vs 2024
Total de auxílios-doença concedidos em 2025
Maior número em 5 anos
Tiveram nexo ocupacional reconhecido
94,5% tratados como doença comum
Evolução dos Afastamentos por Transtornos Mentais (2016–2025)

Fonte: Ministério da Previdência Social, 2026
As perguntas que precisam de respostas
Antes de agir, é preciso entender
O trabalho é o grande responsável por isso?
Se não for, quem é?
O que adoece mais: questões laborais ou extralaborais?
Por que os afastamentos explodiram nos últimos 2 anos — e não só por transtornos mentais?
A Verdade dos Números
94,5% dos afastamentos são tratados como doença comum
O trabalho contribui, mas não explica tudo. Apenas 5,5% dos benefícios por incapacidade tiveram nexo ocupacional reconhecido — o que indica subnotificação ou sub-reconhecimento das causas laborais.
Nexo Ocupacional Reconhecido (2025)

Fonte: Ministério da Previdência Social, 2026
"O trabalho é o maior responsável por esses afastamentos? Conforme o próprio MPS, não."
— Marcos Mendanha, Médico do Trabalho
Doença Comum (B31)
516.207 benefícios — sem estabilidade no emprego após alta
Acidentário (B91)
30.047 benefícios — com nexo ocupacional e estabilidade de 12 meses
Os Principais Vilões
Ansiedade e depressão lideram o ranking
| CID | Transtorno | 2025 | 2024 | Var. |
|---|---|---|---|---|
| F41 | Transtornos ansiosos | 166.489 | 141.414 | +17.7% |
| F32 | Episódios depressivos | 126.608 | 113.604 | +11.4% |
| F31 | Transtorno afetivo bipolar | 60.904 | 51.314 | +18.7% |
| F33 | Transtorno depressivo recorrente | 60.551 | 52.627 | +15.1% |
| F19 | Uso de múltiplas drogas | 25.160 | 21.498 | +17.0% |
| F43 | Reações ao stress grave | 23.773 | 20.873 | +13.9% |
| F20 | Esquizofrenia | 18.686 | 14.778 | +26.4% |
| F10 | Uso de álcool | 12.758 | 11.470 | +11.2% |
Fonte: Ministério da Previdência Social, 2026
Distribuição por Sexo

Top 5 Estados
Fatores Extralaborais
O adoecimento não começa (e não termina) no trabalho
Vivemos um contexto socioeconômico e tecnológico que alimenta o sofrimento psíquico fora do local de trabalho, somando-se aos fatores ocupacionais.
Cuidado com a Positividade Tóxica
Forçar atitude otimista a qualquer custo tende a ocultar o sofrimento real, silenciando emoções negativas. Problemas estruturais não se resolvem apenas com discursos motivacionais.
Violência Urbana
Atua como gatilho de ansiedade e depressão na população em geral.
Precariedade Salarial
Quando a renda mal cobre necessidades básicas, aumentam os transtornos de ansiedade e humor.
Redes Sociais e Hiperconectividade
Uso excessivo está associado a elevação da ansiedade e comparações negativas.
Insegurança Econômica
Instabilidade no emprego e endividamento geram sofrimento psíquico crônico.
O Limbo Previdenciário
O ciclo de vulnerabilidade que ninguém quer ver
Adoece
Trabalhador desenvolve transtorno mental
Afasta-se
Solicita benefício ao INSS
INSS Nega
Perícia não reconhece incapacidade
Empresa Rejeita
Médico da empresa considera inapto
Limbo
Sem renda, sem suporte, sem estabilidade
"Muitos trabalhadores enfrentam um ciclo de vulnerabilidade extrema, sem auxílio financeiro, sem acolhimento e ainda sob risco de perder o emprego."
A Nova NR-1
Saúde mental deixa de ser discurso e passa a ser obrigação legal
A partir de maio de 2026, a NR-1 exige que empresas incorporem os fatores de risco psicossociais em seus Programas de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
Portaria MTE nº 1.419
Inclusão expressa dos fatores de risco psicossociais no GRO. Integração entre NR-1 e NR-17.
Início da Vigência
Empresas devem incorporar riscos psicossociais ao PGR. Período educativo sem multas.
Fiscalização Plena
Após essa data, descumprimento gera autuações e penalidades. Sujeita a auditorias.
"A NR-1 é, hoje, uma resposta de socorro para um cenário de adoecimento coletivo, principalmente ligado à saúde mental."
— Yara Leal Girasole, Advogada Trabalhista
Similaridade com a AET
A mesma lógica da Análise Ergonômica, aplicada aos riscos psicossociais
Assim como a NR-17 exige a AET para riscos ergonômicos, a NR-1 agora exige uma abordagem estruturada para riscos psicossociais — com a mesma lógica de identificação, avaliação e controle.
| Aspecto | AET (NR-17) | Riscos Psicossociais (NR-1) |
|---|---|---|
| Foco | Ergonomia física, cognitiva e organizacional | Fatores psicossociais (estresse, assédio, sobrecarga) |
| Base Legal | NR-17 | NR-1 (atualizada 2024) |
| Metodologia | AET — Análise Ergonômica do Trabalho | Inventário de Riscos + Questionários validados |
| Avaliação | Demanda física, mobiliário, iluminação, organização | Demanda psicológica, autonomia, apoio social, assédio |
| Profissional | Ergonomista | Equipe multidisciplinar (SST + RH + Psicólogo) |
| Documento | Laudo Ergonômico | PGR com Inventário de Riscos Psicossociais |
| Integração | PGR / PCMSO | PGR / PCMSO / Plano de Ação |
| Similaridade | Ambos exigem: identificação → avaliação → controle → monitoramento | Ciclo PDCA integrado ao GRO |
Fluxograma GRO — Gerenciamento de Riscos Ocupacionais

Ciclo de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais conforme NR-1
Diagnóstico de Burnout
Fluxograma para Diagnóstico de Burnout (CID-11)
Conforme a CID-11 (QD85), o Burnout é uma síndrome resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso. O diagnóstico exige a presença simultânea de três dimensões.

Baseado em Marcos Mendanha — Fluxograma para diagnóstico de Burnout conforme CID-11
Exaustão Emocional
Sentimento de esgotamento ou depleção de energia. O trabalhador sente-se incapaz de dar mais de si.
Despersonalização / Cinismo
Aumento da distância mental do trabalho, sentimentos de negativismo ou cinismo em relação às atividades.
Redução da Eficácia Profissional
Sensação de incompetência e falta de realização. Queda mensurável na produtividade e qualidade do trabalho.
Critério Essencial
O Burnout é exclusivamente laboral. Se os sintomas não estão vinculados ao contexto de trabalho, o diagnóstico correto pode ser outro transtorno (F32, F41, F43).
Matriz de Risco Psicossocial
Probabilidade × Severidade: classificando os riscos
A matriz de risco psicossocial segue a mesma lógica de qualquer matriz de risco ocupacional: cruza a probabilidade de ocorrência com a severidade do dano para definir o nível de risco e a prioridade de ação.
Exemplos Práticos de Classificação
Muito Provável × Catastrófica
Assédio moral sistemático + tentativa de suicídio
Provável × Alta
Sobrecarga crônica + episódio depressivo grave
Possível × Moderada
Conflitos interpessoais recorrentes + ansiedade
Improvável × Baixa
Demanda pontual elevada + estresse temporário
Comparativo de Métodos
Qual ferramenta usar? Guia comparativo
Não existe ferramenta única obrigatória. O Guia do MTE recomenda instrumentos validados cientificamente. A escolha depende do porte da empresa, do objetivo e dos recursos disponíveis.
| Método | Origem | Formato | Vantagem | Limitação | Recomendado |
|---|---|---|---|---|---|
| COPSOQ III | Dinamarca (NRCWE) | Questionário (versão curta: 26 itens; média: 59; longa: 87) | Mais completo e reconhecido internacionalmente | Versão longa pode ser extensa para aplicação em massa | Empresas de médio e grande porte com equipe técnica |
| ISTAS21 (CoPsoQ) | Espanha (ISTAS) | Questionário (versão curta: 38 itens) | Versão curta prática e participativa | Menos dimensões que o COPSOQ III | PMEs e processos participativos com trabalhadores |
| ERI (Effort-Reward Imbalance) | Alemanha (Siegrist) | Questionário (23 itens) | Foco no desequilíbrio esforço-recompensa, rápido | Escopo mais restrito (não cobre assédio, violência) | Triagem rápida e estudos epidemiológicos |
| HSE-IT (Management Standards) | Reino Unido (HSE) | Questionário (35 itens) + entrevistas | Integra questionário + abordagem gerencial | Menos difundido no Brasil | Organizações que buscam abordagem gerencial integrada |
| JCQ (Job Content Questionnaire) | EUA (Karasek) | Questionário (49 itens na versão completa) | Modelo teórico robusto (Demanda-Controle) | Não aborda assédio, violência ou fatores organizacionais amplos | Pesquisa acadêmica e diagnóstico inicial |
| SRQ-20 | OMS | Questionário (20 itens sim/não) | Ultra-rápido, gratuito, ideal para triagem em massa | Não é específico para riscos psicossociais do trabalho | Triagem inicial em programas de saúde ocupacional |
Fonte: Guia de Informações sobre Fatores de Riscos Psicossociais — MTE, 2025
Dimensões COPSOQ III
- ■Demandas quantitativas
- ■Ritmo de trabalho
- ■Demandas emocionais
- ■Influência no trabalho
- ■Possibilidades de desenvolvimento
- ■Significado do trabalho
- ■Compromisso com o local
- ■Previsibilidade
- ■Reconhecimento
- ■Clareza de papel
- ■Conflito de papéis
- ■Qualidade da liderança
- ■Apoio social de colegas
- ■Apoio social de superiores
- ■Comunidade social
- ■Insegurança no emprego
- ■Satisfação no trabalho
- ■Conflito trabalho-família
- ■Saúde geral
- ■Burnout
- ■Estresse
- ■Problemas para dormir
Quando Usar Cada Um
Triagem Rápida
SRQ-20 ou ERI — aplicação em minutos, ideal para rastreamento inicial.
Diagnóstico Completo
COPSOQ III ou ISTAS21 — avaliação multidimensional para plano de ação.
Gestão Integrada
HSE-IT — combina questionário com abordagem gerencial e entrevistas.
Pesquisa Acadêmica
JCQ — modelo teórico robusto para estudos epidemiológicos.
Critérios de Escolha
Porte da Empresa
PMEs: ISTAS21 ou SRQ-20. Grandes: COPSOQ III.
Objetivo
Triagem: SRQ-20/ERI. Diagnóstico: COPSOQ. Gestão: HSE-IT.
Equipe Disponível
Sem especialista: SRQ-20. Com equipe SST: COPSOQ III.
Compliance NR-1
Qualquer instrumento validado é aceito. Documente a escolha no PGR.
Roteiro de Implementação
6 etapas para implementar a gestão de riscos psicossociais
Integrado ao PGR conforme NR-1. Cada etapa deve ser documentada e revisada periodicamente.
Preparação e Sensibilização
- ▸Formar comitê multidisciplinar (SST + RH + Jurídico + Psicólogo)
- ▸Definir política organizacional de saúde mental
- ▸Capacitar lideranças sobre riscos psicossociais
- ▸Comunicar o processo a todos os trabalhadores
Identificação dos Perigos
- ▸Aplicar questionário validado (COPSOQ, ISTAS21, SRQ-20)
- ▸Realizar entrevistas e grupos focais
- ▸Analisar dados de absenteísmo, rotatividade e atestados
- ▸Mapear setores e funções de maior risco
Avaliação dos Riscos
- ▸Classificar riscos na Matriz Probabilidade × Severidade
- ▸Priorizar por nível de risco (Crítico → Alto → Médio → Baixo)
- ▸Documentar no Inventário de Riscos do PGR
- ▸Considerar fatores agravantes (trabalho noturno, isolamento, etc.)
Plano de Ação e Controle
- ▸Definir medidas de eliminação/redução para cada risco
- ▸Estabelecer prazos, responsáveis e recursos
- ▸Priorizar medidas coletivas sobre individuais
- ▸Integrar ao Plano de Ação do PGR
Implementação
- ▸Executar medidas conforme cronograma
- ▸Treinar equipes sobre novos procedimentos
- ▸Disponibilizar canais de escuta e apoio psicológico
- ▸Documentar todas as ações realizadas
Monitoramento e Revisão
- ▸Reaplicar questionários periodicamente (anual ou semestral)
- ▸Acompanhar indicadores (absenteísmo, turnover, satisfação)
- ▸Revisar e atualizar o PGR conforme resultados
- ▸Manter registros para fiscalização e auditorias
Nexo Causal
Como avaliar o nexo entre trabalho e transtorno mental
A comprovação do nexo causal é um dos maiores desafios na saúde mental ocupacional. Exige análise técnica multidisciplinar e documentação robusta.
Os 4 Pilares da Comprovação
Diagnóstico Clínico
CID confirmado por profissional de saúde. Deve haver laudo médico ou psicológico com descrição detalhada dos sintomas e evolução.
Exposição ao Risco
Comprovação de que o trabalhador esteve exposto a fatores de risco psicossociais no ambiente de trabalho (inventário de riscos, AET, relatos).
Nexo Temporal
Relação cronológica entre a exposição e o adoecimento. O início ou agravamento dos sintomas deve coincidir com a exposição laboral.
Exclusão de Outras Causas
Avaliação de fatores extralaborais (violência, problemas familiares, uso de substâncias) que possam explicar o quadro de forma independente.
Tipos de Nexo Reconhecidos pelo INSS
NTEP — Nexo Técnico Epidemiológico
Cruzamento automático entre CID e CNAE. Se a combinação está na lista do INSS, presume-se nexo ocupacional (inversão do ônus da prova).
Nexo Técnico por Doença Equiparada
Quando há evidência epidemiológica de que a doença tem relação com a atividade, mesmo sem estar na lista NTEP.
Nexo Individual (Perícia)
Avaliação caso a caso pelo perito do INSS, considerando histórico clínico, ocupacional e exames complementares.
Pontos Críticos para Avaliação do Nexo
Concausalidade
O trabalho não precisa ser a causa única. Basta que tenha contribuído para o adoecimento ou agravamento, mesmo havendo fatores extralaborais.
Inversão do Ônus da Prova
Com o NTEP, cabe à empresa provar que NÃO há nexo. Se a empresa não tem PGR com riscos psicossociais documentados, fica mais vulnerável.
Documentação é Proteção
Empresas que documentam a gestão de riscos psicossociais (inventário, plano de ação, monitoramento) têm maior respaldo em contestações.
Papel do Inventário de Riscos
O inventário de riscos do PGR é a principal evidência técnica. Sem ele, a empresa não tem como demonstrar que avaliou e controlou os riscos.
Dashboard de KPIs
Indicadores essenciais para monitoramento
Monitorar é tão importante quanto implementar. Estes KPIs permitem acompanhar a efetividade das ações e demonstrar compliance em auditorias.
Saúde
(Dias perdidos por TM / Dias trabalhados) × 100
% de trabalhadores com score ≥ 7 no SRQ-20
Novos afastamentos por TM / Total de trabalhadores
Clima e Engajamento
Média das dimensões do questionário aplicado
Pesquisa de clima — dimensão satisfação
Pesquisa de clima — dimensão suporte
Rotatividade e Retenção
(Desligamentos voluntários / Headcount médio) × 100
Soma dos dias de afastamento / Nº de afastamentos
Retornos bem-sucedidos / Total de afastamentos
Compliance NR-1
Setores com inventário atualizado / Total de setores
Ações concluídas / Ações planejadas
Trabalhadores treinados / Total de trabalhadores
Hora de Agir
De discurso a ação:
o prazo é agora
Em 2026, a saúde mental no trabalho deixa de ser apenas tema de campanhas e passa a ser questão de conformidade legal. Os números alarmantes de 2025 são um recado claro: é hora de agir de forma estrutural e educativa.
"Proteger a saúde mental dos trabalhadores não é só cuidar do indivíduo — é também zelar pela sustentabilidade das empresas e do sistema previdenciário."
Checklist de Ação Imediata
Incluir riscos psicossociais no Inventário de Riscos do PGR
Aplicar questionário validado (COPSOQ, ISTAS21, SRQ-20)
Classificar riscos na Matriz Probabilidade × Severidade
Elaborar Plano de Ação com prazos e responsáveis
Capacitar lideranças sobre saúde mental e riscos psicossociais
Disponibilizar canais de escuta e apoio psicológico
Monitorar KPIs de saúde mental periodicamente
Documentar todas as ações para compliance e auditorias
O Novo Centro da
Gestão Estratégica de Riscos
A inclusão do risco psicossocial na NR-1 não é apenas uma atualização normativa. É uma mudança estrutural na forma como organizações devem enxergar o risco.
A partir de maio, não se trata mais de recomendação — trata-se de exigibilidade formal. Burnout, exaustão crônica, distúrbios do sono, depressão ocupacional e nexo causal laboral passam a integrar o GRO/PGR como risco mensurável e gerenciável.
Ponto Crítico
"Grande parte desses riscos nasce de variáveis físicas mal avaliadas ou mal interpretadas."
A ideia de sair do ERM tradicional baseado em check-lists e heatmaps para um modelo de vigilância estratégica contínua (scanning) dialoga diretamente com o que temos observado na prática técnica em engenharia, offshore, energia e saúde ocupacional.
Modelo Antigo
Conformidade Documental
Check-lists, heatmaps, auditorias pontuais
Modelo Novo
Vigilância Operacional Contínua
Scanning, sinais fracos, cenários plausíveis
Caso Emblemático: Tanque da Vibra — Volta Redonda
Quando o sistema de gestão só reage ao dado auditável
Não foi um evento totalmente imprevisível do ponto de vista técnico, mas um típico "ponto cego" organizacional. Havia sinais fracos que o sistema de gestão de riscos convencional não conseguiu capturar:
Manutenção com histórico deficiente
Contexto ambiental ignorado
Condições estruturais subestimadas
Sistema de gestão reativo — só age quando dado é auditável
Lição Central
"Se esperamos a evidência perfeita, já estamos em modo de crise."
O maior risco hoje é o que ainda não aparece no relatório. Justamente por isso, a vigilância contínua e a leitura de sinais fracos deixam de ser conceitos teóricos e passam a ser ferramentas essenciais.
O Ponto Cego: Conforto Não É Insalubridade
NR-37 e o equívoco conceitual nos limites de referência para vibração
✅ Ruído em Camarotes — NR-37 acertou
Para ruído em camarotes, a NR-37 adota critério de conforto acústico, coerente com descanso e recuperação fisiológica:
60 dB(A)
Máximo em camarotes
55 dB(A)
Já exige medidas preventivas
🔴 O Equívoco da NR-37 — Vibração
Mas para vibração de corpo inteiro (WBV), o item 37.12.7.1 m) da NR-37 remete ao nível de ação da NR-09 (0,50 m/s²).
Esse é um critério de exposição ocupacional diária (insalubridade).
Camarote não é posto de trabalho ativo.
É ambiente de descanso. A analogia correta: é como permitir 80 dBA em camarote porque é limite ocupacional — o que seria absurdo. O erro não está no ruído. Está na vibração.
📊 Comparação Técnica — Vibração (WBV)
| Critério | Valor |
|---|---|
| NR-37 (remissão NR-09 — nível de ação) | 0,50 m/s² |
| Conforto humano (ISO 2631 / ISO 6954 / práticas offshore) | 0,04 – 0,07 m/s² |
Valores até 10× menores para conforto. Estamos medindo com a régua errada.
NR-37 (NR-09)
0,50 m/s²
Insalubridade ocupacional
ISO 2631 / 6954
0,04 m/s²
Conforto em cabines offshore
O que ocorre hoje em campanhas offshore
Medições inadequadas
Equipamentos configurados apenas para insalubridade, sem análise espectral em 1/3 de oitavas
Ausência de sensibilidade
Sem capacidade de detectar níveis de conforto em áreas de descanso — sem avaliação triaxial (X, Y, Z)
Relatórios "conformes"
Formalmente corretos, mas tecnicamente equivocados para conforto — como usar dosímetro que não mede abaixo de 70 dBA
Custo sistêmico invisível
Fadiga crônica, privação de sono, erro humano, risco psicossocial e maior propensão a burnout
📉 O Problema da Métrica Errada
Conforto vibroacústico exige:
Referências internacionais: IMO, NORSOK, ABS, ISO 6954 — cabines e áreas de acomodação exigem limites muito mais baixos e instrumentação adequada, com medições em 1/3 de oitava e grandezas em aceleração e velocidade de vibração.
Por Que Isso É Um Risco Psicossocial?
O risco não nasce apenas da pressão hierárquica — nasce do ambiente físico inadequado
Sono fragmentado + vibração contínua + ruído estrutural geram uma cadeia de efeitos que conectam diretamente o ambiente físico ao risco psicossocial:
Sono fragmentado
→Fadiga acumulada
→Irritabilidade
→Redução cognitiva
→Aumento de erro operacional
→Maior propensão a conflitos
→Maior probabilidade de burnout
Convergência com a NR-17
A AET (Análise Ergonômica do Trabalho) deve considerar:
Se a medição de vibração for feita com critério de insalubridade, o laudo estará formalmente correto, mas tecnicamente falho para conforto — e o risco psicossocial permanecerá invisível.
Impacto Sistêmico
Com o risco psicossocial na NR-1, o problema deixa de ser técnico e passa a ser estratégico
Aumento de afastamentos
Maior sinistralidade em seguros
Ampliação do passivo trabalhista
Crescimento de alegações de nexo causal
Risco reputacional
Perda de performance operacional
A Convergência NR-1 + NR-17
Risco psicossocial integrado ao GRO/PGR com tratamento técnico via AET
O Brasil deu um passo importante ao inserir o risco psicossocial na NR-1, com exigibilidade efetiva a partir de maio de 2026. Burnout, adoecimento mental e nexo causal laboral passam a integrar formalmente o GRO/PGR.
O tratamento técnico se consolida na NR-17, por meio de AETs e laudos ergonômicos completos, considerando:
Organização do trabalho
Turnos e ritmos
Conforto ambiental
Carga cognitiva e emocional
Adequação aos parâmetros mínimos de conforto para agentes físicos
Ponto de Convergência
NÃO DÁ MAIS PARA
Tratar risco psicossocial como evento reativo
É NECESSÁRIO
Monitoramento contínuo e leitura de sinais fracos
Convergência: A Nova Lógica de Gestão de Riscos
Scanning contínuo, sinais fracos e planejamento por cenários
Riscos Psicossociais
Sinais fracos antes de se tornarem afastamentos ou litígios
Conforto Vibroacústico Offshore
Pequenos desvios persistentes geram fadiga e eventos maiores
Falhas Estruturais
Sinais técnicos ignorados se tornam acidentes visíveis
O que a nova lógica exige
Métrica correta e equipamento adequado
Leitura integrada de dados técnicos e humanos
Interpretação integrada e scanning contínuo
Atuação antes da evidência auditável
Conclusão e Alerta
O maior risco hoje não é a vibração elevada.
É medir vibração com o critério errado.
Não é o ruído isolado. É a soma de desconforto físico + pressão organizacional.
Não é a norma isolada. É a interpretação limitada dela.
A entrada do risco psicossocial na NR-1 exige maturidade técnica.
A maturidade técnica começa com
Sem isso, continuaremos cumprindo formalidades enquanto o risco real cresce silenciosamente.
Anexo Técnico
Organização e Gestão: a Influência dos Fatores Psicossociais na Saúde no Trabalho
Material técnico da Fundacentro, elaborado por Juliana Andrade Oliveira, sobre a relação entre organização do trabalho, reestruturações produtivas e riscos psicossociais.
Panorama Global da Crise
A dimensão mundial do adoecimento mental no trabalho
1 em 8
pessoas no mundo vivem com algum tipo de sofrimento mental
OMS
257 mi
adultos viviam com depressão em 2019
OMS
15%
da população em idade de trabalhar tem adoecimento mental
OMS/OIT, 2022
644 mi
dias perdidos no Brasil desde 2012
INSS/Smartlab
"É o momento certo para abordar os riscos psicossociais de forma mais assertiva. A pandemia de COVID-19 aumentou a conscientização de que o trabalho é um determinante social da saúde e que os riscos relacionados ao trabalho podem ter um grande impacto na saúde mental."
— Schulte et al., 2024 (NIOSH)
Evolução Normativa (2019–2026)
Do reconhecimento à obrigação legal
Convenção 190 da OIT
Aprovada na OIT a Convenção sobre eliminação da violência e do assédio no mundo do trabalho, junto com a Recomendação 206.
Revisão da NR-17
Bancada dos trabalhadores solicita inserção de seção específica sobre aspectos psicossociais do trabalho.
ISO 45003
Publicação da norma internacional de gestão de riscos psicossociais no trabalho.
GET na CTPP
Início do Grupo de Estudos Tripartite sobre Riscos Psicossociais no Trabalho. Dados mostram crescimento consistente dos afastamentos desde 2016.
Relatório OMS + OIT
Relatório conjunto destinado a ressaltar o trabalho como fator de adoecimento mental.
Lei Empresa Promotora de Saúde Mental
Lei Federal criando Certificado de Empresa Promotora de Saúde Mental no Trabalho. Ministério da Saúde atualiza Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho.
Riscos Psicossociais no GRO
Inclusão da expressão 'riscos psicossociais' na NR-1, reforçando a obrigação de contemplá-los no gerenciamento de riscos ocupacionais.
Vigência Plena
Adiamento da vigência do novo texto na NR-1 para maio de 2026, com fiscalização efetiva.
6 Categorias de Fatores de Risco Psicossocial
Modelo College D'Expert / INRS (Gollac e Bodier, 2011)
Intensidade e Tempo de Trabalho
Metas com prazos curtos, eliminação de pausas, aceleração do ritmo, extensão de jornada e horas extras excessivas.
Exemplos
Metas inalcançáveis, escala 6×1, jornada de 44h sem pausas adequadas
Exigências Emocionais
Demanda de performance emocional como parte do serviço, pressão de usuários e clientes, contato com sofrimento.
Exemplos
Teleatendimento, profissionais de saúde, assistência social
Fraca Autonomia de Trabalho
Roteirização de atendimento, ausência de latitude de decisão, monotonia e impossibilidade de aperfeiçoamento.
Exemplos
Scripts obrigatórios, microgerenciamento, trabalho repetitivo
Relações Sociais Degradadas
Gestão que estimula competição em vez de cooperação, ausência de escuta dos trabalhadores, estilos de liderança tóxicos.
Exemplos
Assédio moral, isolamento, falta de suporte da chefia
Conflito de Valores
Sofrimento ético, discordância entre os princípios do trabalhador e os modos de fazer impostos pela gestão.
Exemplos
Trabalho 'mal feito' por imposição, metas que comprometem qualidade
Insegurança da Situação de Trabalho
Ameaça de desemprego, mudanças organizacionais, precarização dos vínculos, pejotização e trabalho intermitente.
Exemplos
Terceirização, plataformização, contratos temporários
Reestruturações Produtivas e Riscos Psicossociais
Para cada modo de produção, há riscos psicossociais correspondentes
Manufatura e Maquinofatura
Retalhamento de tarefas, máquinas movidas a carvão e vapor. Trabalho assalariado feito em galpões. O artesão ainda conhece todo o processo de trabalho.
Riscos Psicossociais Associados
Jornadas exaustivas, trabalho infantil, ausência de proteção
Agentes e Fatores de Risco Psicossociais
Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho — Ministério da Saúde, 2023
Gestão Organizacional
+Contexto da Organização do Trabalho
+Relações Sociais no Trabalho
+Conteúdo das Tarefas
+Condições do Ambiente
+Interação Pessoa-Tarefa
+Jornada de Trabalho
+Violência, Assédio e Discriminação
+Onde Estão os Fatores Psicossociais?
Três dimensões fundamentais de análise
Na Organização do Trabalho
Processo de trabalho e gestão da força de trabalho. Os fatores são identificados pelos trabalhadores e variam conforme a situação e ocupação analisada.
Inclui: normas de produção, modo operatório, exigência de tempo, ritmo, conteúdo das tarefas e aspectos cognitivos (NR-17, art. 17.4.1).
Nas Condições de Contratação
Relações de emprego ou ausência delas. Precarização, pejotização, trabalho intermitente, remuneração variável e insegurança laboral.
Inclui: pagamento por peça, tempo de espera sem remuneração, extensão de jornada, escala 6×1, trabalho noturno.
Na Divisão Social do Trabalho
Discriminação por gênero, raça, origem étnica, religião, orientação sexual e deficiência no seio das atividades de trabalho.
Inclui: injustiça organizacional, distribuição desigual de tarefas, desigualdades salariais, obstáculos à sindicalização.
Insight Fundamental
"Os 'tempos mortos' para o capital são os tempos vivos para a saúde. O ataque à saúde mental é quando os valores construídos coletivamente são ignorados e oprimidos por uma gestão externa à atividade de trabalho."
— Juliana Andrade Oliveira, FundacentroAs medidas de proteção à saúde mental no trabalho devem intervir no seio do próprio trabalho, e não apenas no indivíduo. Recursos de autocuidado são importantes, mas serão sempre insuficientes se não houver ação diretamente nas condições, na organização e no desenho do trabalho.
Modelo de Intervenção Participativa
A Ergonomia como caminho para o trabalho que não adoece
Identificação Participativa
Feita com escuta ativa dos trabalhadores operadores, que sempre têm proposições a partir de sua experiência.
Retorno aos Trabalhadores
Comunicação transparente dos resultados da identificação, garantindo que os trabalhadores conheçam os achados.
Negociação Multinível
Negociação das ações entre os níveis operacionais, intermediários e direção da organização.
Implementação Consensuada
Execução das ações que foram consensuadas entre todos os níveis, com prazos e responsáveis definidos.
Acompanhamento
Monitoramento contínuo das ações implementadas, verificando eficácia e necessidade de ajustes.
Reinício do Ciclo
Reinício periódico ou em eventos sentinela — como casos de assédio — garantindo melhoria contínua.
"A questão da subjetividade no trabalho não deve ser um empecilho para a identificação dos fatores causadores de sofrimento mental nos ambientes de trabalho e sua prevenção. Sendo os fatores de risco psicossocial conhecidos por meio da escuta dos trabalhadores, tendo o ponto de vista da atividade de trabalho como referência, a Ergonomia pode propor intervenções para promover o trabalho que não adoece, que tem sentido e que promove saúde."
— Juliana Andrade Oliveira, Fundacentro
Referências Bibliográficas
GOLLAC, M. e BODIER, M. (2011). Mesurer les facteurs psychosociaux de risque au travail pour les maîtriser.
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